16.07 Painel 3: 2003-2013 - A Política Externa Brasileira e a crise internacional

Adhemar S. Mineiro, economista e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Luiz Eduardo Melin de Carvalho e Silva, diretor da Área Internacional e de Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e coordenação de Virgínia Barros, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Imagens: Rede TVT.

16.07. Painel 1: 2003-2013 - O Brasil frente aos grandes desafios globais (por Aline Andrade Rocha)

Em meio aos grandes temas que envolvem as relações internacionais, a questão econômica marcou a abordagem adotada pelos palestrantes do painel “O Brasil frente aos grandes desafios globais”. A começar pela exposição simpática e cheia de ironias do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, a crise econômica recente permitiu elucidar a perversidade do capitalismo no que tange às consequências da especulação financeira e ao poder das multinacionais. Como um desafio global, o embaixador destacou que a crise de 1929 envolvia as empresas nacionais, enquanto na recente, que atingiu principalmente a Europa, viu-se um papel destacado das empresas multinacionais. A importância desse fato é que, enquanto a Europa adotou equivocadamente um modelo de austeridade com redução dos programas sociais e das despesas, as multinacionais, com sua capacidade de mobilidade e grande capital, se instalaram na fronteira do capitalismo - a China - e de lá seguiram exportando para os grandes países do mundo. Dessa forma, a crise econômica se tornou social e a concentração de riqueza se manteve.

Essa constatação converge com a exposição de Paulo Fagundes Vizentini, do professor do Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais da UFRGS, que também apontou para a financeirização como um grande desafio global e provocou os participantes ao afirmar que se promove a imagem de uma realidade tranquila, para dentro e para fora do país, mas que, na verdade, é falsa. Ainda que possa ter sido apenas “uma marolinha”, a crise impactou o Brasil e se refletiu em esforços de normatização das atividades econômicas, o que demonstra o condicionamento da política econômica interna e alerta sobre a dificuldade de lidar com a relação entre o setor empresarial e o Estado.

Como outros obstáculos globais, Samuel Pinheiro Guimarães citou a importância dos desafios militares com foco na urgência de o Brasil ter um serviço de inteligência efetivo; desafios ambientais, constatados como distantes da agenda atual, apesar de sua inegável importância mundialmente, e os desafios políticos, centrados na formação de grandes blocos no mundo.

Quanto ao tema dos grandes blocos, vale ressaltar a assimetria existente entre os países que constituem a Unasul e o Mercosul, organizações fundamentais para decidirem suas questões políticas sem interferências externas, por um lado, e dedicadas a negociar, pelos Estados, a regulamentação do comércio que muitas vezes é equivocadamente tratado como “livre comércio”. Para o embaixador, isso constitui uma grande falácia. Se os Estados não organizam a ação das empresas multinacionais, estas determinam o que deve ser produzido e exportado de um país para o outro.

Além disso, a questão tecnológica também se relaciona com o papel das multinacionais. A grande problemática é que o capital multinacional se encontra engendrado em nossa economia. Sendo assim, é preciso fazer com que as empresas instaladas no Brasil contribuam efetivamente para o desenvolvimento tecnológico nacional, o que exige algumas condições destacadas como primordiais: poder financeiro de crédito e de compra do Estado, e política tarifária.

No entanto, a necessidade da presença do Estado não acompanha a condição insuficiente que este apresentou principalmente depois da blindagem sofrida nos anos 1990. Para Vizentini, foi justamente essa blindagem que debilitou o Estado e ao mesmo tempo garantiu condições que o fizesse parecer responsável por todas as mazelas da sociedade.

Esse cenário permitiu que a chamada nova política externa tivesse condições de se construir pela exigência de uma diplomacia autonomista. O mundo em transformação permitiu novas alianças, e a sensibilidade do ex-presidente Lula aos fenômenos sociais fez diferença no modo de se enxergar o Brasil no mundo. Por tudo isso foi possível construir conexões Sul-Sul no desenvolvimento da África e na aproximação política com a América Latina.

Apesar dos avanços, o colonialismo continua presente, sutil e permanentemente, ponto alto de concordância entre as falas de todos os painelistas. Para Pedro Bocca, Secretário de Relações Internacionais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a Política Externa progressista desenvolvida a partir de 2003 apresentou conquistas de autonomia, mas também contradições que precisam ser pontuadas para que seja possível avançar nas relações com o mundo de forma solidária.

Para tanto, é imprescindível que os movimentos sociais estejam próximos do governo, do Itamaraty, e que possam estar representados não apenas em modelos consultivos de participação na política externa, mas sejam envolvidos reconhecidamente como atores dessas relações internacionais. Bocca avaliou que o Brasil tem condições políticas e econômicas de oferecer alternativas nas questões externas frente à mundialização do capital, da informação e da crise de representatividade das instituições internacionais tradicionais.

Segundo Pedro, a perspectiva de que um único ator não contempla as necessidades do mundo e enfatizou na fala de encerramento que a lógica tradicional do universo acadêmico não serve a governos progressistas, e por isso deve-se lutar por uma política externa que além de ativa e altiva, possa vir a ser efetivamente popular.

Dentre os vários pontos abordados durante as intervenções dos participantes destacaram-se a prioridade da democratização da mídia para romper com o controle hegemônico a que está submetida no Brasil, e a importância da educação para combater preconceitos sobre nossas sociedades vizinhas. Para Samuel Pinheiro Guimarães, a cooperação se faz possível por causa do conhecimento que adquirimos sobre o outro. Dessa forma, o tom do debate, crítico e descontraído, garantiu que o painel se desenvolvesse de forma bastante direta e que as contribuições de todos os presentes fossem tão provocativas quanto os grandes desafios globais para a política externa atual.

 

 

Por Aline Andrade Rocha (graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho' - Campus Franca).

Resumo do painel '2003-2013: O Brasil frente aos grandes desafios globais' , parte da programação da Conferência Nacional '2003 - 2013: uma nova política externa', ocorrida entre 15 e 18 de julho de 2013 na Universidade Federal do ABC (UFABC).

 

** Aline Andrade Rocha é