16.07 Painel 3: 2003-2013 - A Política Externa Brasileira e a crise internacional

Adhemar S. Mineiro, economista e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Luiz Eduardo Melin de Carvalho e Silva, diretor da Área Internacional e de Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e coordenação de Virgínia Barros, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Imagens: Rede TVT.

16.07. Painel 3: 2003-2013 - A Política Externa Brasileira e a crise internacional (por Juliano Aragusuku)

No dia 16 de julho, no âmbito da Conferência Nacional “2003-2013: Uma nova política externa” foi realizado o painel A política externa brasileira e a crise internacional. O painel contou com a participação de Adhemar S. Mineiro (economista e técnico do Dieese - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e Luiz Eduardo Melin de Carvalho e Silva (diretor da área internacional e de comércio exterior do BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento). As atividades foram coordenadas por Virgínia Barros, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE).

No ano de 2008, quebrava uma das maiores instituições financeiras dos Estados Unidos, o banco Lehman Brothers, como resultado da crise dos subprimes (títulos podres) no sistema financeiro estadunidense. As consequências para a economia internacional foram desastrosas. A crise financeira se desdobrou em uma crise fiscal e afetou de forma rigorosa a economia real, minando os pilares que sustentavam políticas de bem-estar social. Resultado: desemprego, pobreza, insegurança social. Em meio ao caos financeiro, as economias emergentes aparentavam maior grau de imunidade, com destaque para os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Dentre as causas para essa resistência podemos destacar uma política de crescimento baseada no mercado interno e políticas anticíclicas, suavizando as flutuações no nível das atividades econômicas. Porém, mesmo as economias emergentes sofreram desgastes como consequência da crise.

A coordenadora das atividades, Virgínia Barros, abriu as atividades mencionando que essa temática está na pauta dos debates da UNE nas universidades e com os movimentos sociais. A crise implicou em mudanças nas relações internacionais, como o declínio dos Estados Unidos, Europa e Japão no mesmo momento em que foram abertas oportunidades para as economias emergentes, principalmente para a China, mas também para o BRICS. Para Virgínia, o Brasil deveria aproveitar a oportunidade buscando soluções no combate à desigualdade social, com uma politica autônoma e soberana.

Saídas da crise
Adhemar Mineiro focou nas formas de saída da crise. A crise consistiu no esgotamento de um modelo e, em muitos países, as soluções apontadas foram elementos desse mesmo modelo (políticas ortodoxas de austeridade fiscal). Dentre instrumentos para saída da crise, Mineiro apontou a política fiscal e a política monetária e creditícia, proporcionando a facilitação do acesso ao crédito, tanto para a sociedade como para empresas por meio do BNDES.

Três períodos distintos foram apontados. Entre 2003 e 2005, a política econômica brasileira foi pautada em uma busca pelo ajuste. De 2006 a 2008, houve uma tentativa de retomar o crescimento. A partir de 2008 a política econômica corresponde à tentativa de resposta à crise, momento que Mineiro destacou como o mais criativo.

Fazendo menção ao título da mesa, política externa e crise, Mineiro apontou para uma questão importante. Entre 2003 e 2008, o Brasil atuou na esfera econômica com uma postura defensiva. Simultaneamente, esse período correspondeu a um momento muito criativo do ponto de vista da política externa (atuação no IBAS e G20, por exemplo). Essas ações da política externa consistiram em importantes formas de buscar a diminuição da vulnerabilidade econômica.

Com a deflagração da crise em 2008, abriu-se um espaço que viabilizou maior criatividade do ponto de vista econômico, o que se traduziu em controle de capitais, redução da taxa de juros, aceleração do comércio regional em moedas nacionais. De 2010 em diante, a resposta não foi mantida com a mesma criatividade. Houve nesse momento um ponto de inflexão na política econômica do ponto de vista macroeconômico. É retomada uma tendência por soluções tradicionais. A oportunidade não teria sido aproveitada, e o retorno de medidas econômicas tradicionais trouxe de volta a possibilidade de novas crises com a mesma natureza.

Como o Brasil foi afetado pela crise?
Luiz Eduardo Melin trouxe ao debate elementos importantes a partir de uma visão interna, uma vez que foi secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda entre 2006 e 2010. Apontou que a crise, de natureza financeira iniciada nos Estados Unidos, comprometeu a capacidade do sistema financeiro de cumprir com o seu papel. A moeda estadunidense foi comprometida, e por um processo de transmissão houve um contágio para outras economias. Em um primeiro momento, o contágio afetou rigorosamente as economias com maior entrelaçamento nos fluxos financeiros com os Estados Unidos (Europa, Japão). Em um segundo momento, a crise se alastrou em um sentido mais amplo, afetando também as economias emergentes.

Como o Brasil foi afetado? E quais eram as respostas possíveis? Melin apontou dois elementos para mensurar a capacidade de resposta dos países frente a crise. Primeiro, o grau de dependência entre o sistema financeiro interno em relação aos fluxos financeiros internacionais. Segundo, a estrutura das economias internas (capacidade do mercado interno, capacidade de gerar saldos exportáveis, etc.). A crise chega ao Brasil em um momento em que a sua política econômica era reconfigurada, com foco na inclusão econômica-social e crescimento do mercado interno através da geração de emprego e renda.

A crise afetou o Brasil, mas também apresentou oportunidades. Foi adotada uma postura inversa ao sentido tradicional, com o aumento de investimentos na contramão das medidas de austeridade. Destacaram-se os investimentos em infraestrutura (com destaque para o PAC), implementados com o objetivo de fortalecer a economia interna.

Nesse sentido, Melin apontou que a política externa econômica brasileira se desenrolou em dois níveis: multilateral e regional. No âmbito multilateral, destacou a ação na esfera do G20. A resposta natural para a crise eram as medidas ortodoxas de austeridade, e a posição brasileira advogava o contrário. Com o aprofundamento da crise, mesmo as economias do G7 passaram a mudar sua postura, permitindo um mínimo de incentivos. Na sua atuação no contexto das instituições de Bretton Woods (FMI, Banco Mundial), viciadas em suas estruturas decisórias, o Brasil atuou em uma campanha pela reformas dessas estruturas.

No plano regional, Melin destacou o foco do governo Lula na integração regional, e um aprofundamento desse foco com a deflagração da crise. Nessa esfera, destacaram-se a constituição do Banco do Sul, o aprofundamento do comércio intra-regional, e obras de infraestrutura para aprofundar as conexões entre os países da região. Melin destacou a convergência de interesses dos países nesse sentido.

Consenso
Um ponto consensual que apareceu em todas as falas foi de que o Brasil deve ter na sua resposta à crise internacional uma ação de busca pela prosperidade econômica e social, por exemplo através de políticas de geração de emprego e renda.

 

 

Por Juliano Aragusuku

Resumo do painel '2003-2013 - A Política Externa Brasileira e a crise internacional ', parte da programação da Conferência Nacional '2003 - 2013: uma nova política externa', ocorrida entre 15 e 18 de julho de 2013 na Universidade Federal do ABC (UFABC).