16.07 Painel 3: 2003-2013 - A Política Externa Brasileira e a crise internacional

Adhemar S. Mineiro, economista e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Luiz Eduardo Melin de Carvalho e Silva, diretor da Área Internacional e de Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e coordenação de Virgínia Barros, presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Imagens: Rede TVT.

17.07. Mesa 6: A Política Externa Brasileira, comércio internacional, investimentos e assimetrias (por Diana Aguiar Orrico)

A mesa “A Política Externa Brasileira, comércio internacional, investimentos e assimetrias” debateu as inflexões do período 2003-2012 e os desafios que permanecem.

O Prof. Dr. Giorgio Romano – Professor e Coordenador do curso de Relações Internacionais da UFABC – falou sobre o conjunto de fatores que ele considera definir a inserção do Brasil no mundo. O primeiro desses fatores seriam as condicionantes econômicas, sociais e políticas internas do período, dentre outros, o chamado “efeito Lula”, ou seja, o fato de que a desconfiança do mercado financeiro frente à eleição do ex-presidente criou como resultado indireto uma taxa de câmbio mais favorável às exportações. O segundo fator, seria a correlação de forças internacionais como por exemplo o aumento dos preços das commodities no período em questão, que o Brasil soube aproveitar.

O terceiro conjunto de fatores diz respeito justamente às diretrizes e atuação da política externa brasileira (PEB), via uma diplomacia presidencial ativa, a aposta na diversificação de parceiros comerciais e a atenção às relações comerciais na América do Sul. Um desses fatores da atuação da PEB teria sido o ativismo propositivo na OMC, com a quebra da lógica do Quad (EUA/UE/Japão/Canadá), quando o Brasil liderou a criação do G20 comercial. A lógica deste ativismo na OMC, segundo Prof. Giorgio, era a defesa do espaço de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento, além do uso estratégico do Órgão de Solução de Controvérsias da OMC e antidumping, gerando jurisprudência.

Assim, a evolução da corrente de comércio (importação mais exportação) entre 2002 e 2012 cresceu com todas as regiões do mundo, ainda que haja diferenças: com os países desenvolvidos o Brasil passou de superavitário para deficitário e com os países em desenvolvimento o país aumentou o superávit, especialmente com a China. Um problema central do período apontada por ele é a chamada primarização da pauta exportadora: em todas as regiões do mundo aumentaram a exportação de produtos básicos pelo Brasil.

Em decorrência desses fatores, durante a crise de 2008, para ele, havia condições a aproveitar – como o crescimento de 7% ao ano, reservas acumuladas, política desenvolvimentista via PAC, popularidade interna de Lula – que teria propiciado um enfrentamento heterodoxo da crise financeira internacional sem crise cambial, com valorização das opções políticas existentes (por exemplo, bancos públicos e políticas sociais). Alguns anos depois, esta situação teve algumas mudanças. Por exemplo, hoje se pode falar não só de primarização da pauta exportadora, como também de um processo em curso de desindustrialização. Neste contexto, o déficit da balança comercial de manufaturas é camuflado pelo superávit de produtos primários. Além disso, o chamado “tsunami monetário” decorrente das políticas de alívio quantitativo dos EUA e Europa impõe um desafio central para a economia brasileira. “O modelo demanda-crescimento não funciona mais”, afirmou Romando, ou seja o aumento do poder de compra do mercado interno vai cada vez mais para a importação de manufaturas chinesas, intensificando a desindustrialização. Para ele, um dos pontos mais positivos do atual contexto é o Investimento Estrangeiro Direto que deve ser aproveitado via pesquisa e desenvolvimento, como tem sido feito com o Pré-sal.

O segundo palestrante a falar, Marcos Antonio Macedo Cintra, Técnico em Planejamento e Pesquisa do IPEA, partindo da fala anterior priorizou debater os desafios existentes para a PEB. Para ele, há muitos ganhos, mas a taxa de câmbio e taxa de juros são “um desastre”. O desadensamento das cadeias produtivas é demasiado grave para que a produção de petróleo seja suficiente, já que não é capaz de gerar empregos, bem como não o é o agronegócio. Apesar do pré-sal ser uma grande oportunidade, há o risco de que essas plataformas offshore repliquem a experiência da Nigéria, onde muito pouco dos benefícios ficam no país.

Ao mesmo tempo, há uma transformação tecnológica gigantesca da Ásia, com um processo de redução de custo e de preços e enquanto os Estados Unidos estão se reindustrializando. “Não estou convencido de um mundo multipolar”, diz ele, “o mundo que estamos vivendo é de interpenetração crescente, sob a liderança militar, monetária e tecnológica dos Estados Unidos. A evolução tecnológica deles é impressionante. Não há declínio do poder americano.” Para Cintra, a decadência da Europa é sim evidente, com o euro se configurando como uma moeda irrelevante para o sistema monetário internacional. Nesse contexto, a União Europeia está em processo de crescente deterioração, perda de poder, rivalidades internas e crise permanente.

Além disso, a gestão dessa ordem é cada vez mais difícil porque as políticas macroeconômicas e cambiais não estão funcionando, como mostram os déficits fiscais nas economias centrais. “A crise capitalista vai gerar um novo mundo a partir da liderança americana” segundo Cintra. E como o Brasil se insere inserimos nessa ordem? “Exportamos matérias primas, importamos manufaturas. Esse é um modelo que não gera emprego. Há grandes êxitos sim na política externa e na política comercial, mas são insuficientes; os anos futuros serão duros, preparem-se” afirmou.

O terceiro palestrante Nivaldo Santana – Vice-presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil / CTB – defendeu um projeto nacional de desenvolvimento que vise a fortalecer o mercado interno com base na valorização do trabalho e da integração solidária com os países vizinhos.
Segundo ele a diminuição da pobreza e da desigualdade social no período 2003-2012 tem como principal vetor as políticas de valorização do trabalho e do salário mínimo. O Brasil passou a ter uma PEB mais afirmativa e mais soberana, com diversificação das relações exteriores.

O principal gargalo deste processo foi, segundo ele, a não realização de reformas estruturais fundamentais, como a tributária, agrária, urbana, política, do judiciário e a democratização da mídia “para que não sejamos vítimas do pensamento único”.

Além disso, para Santana, o mercado de trabalho brasileiro ainda é precário e heterogêneo e a reprimarização da pauta exportadora tem impacto forte no mercado de trabalho. “Outro fator de preocupação é o componente de desnacionalização da nossa economia em setores estratégicos” afirmou.

 

Por Diana Aguiar Orrico

Resumo da mesa 'A Política Externa Brasileira, comércio internacional, investimentos e assimetrias', parte da programação da Conferência Nacional '2003 - 2013: uma nova política externa', ocorrida entre 15 e 18 de julho de 2013 na Universidade Federal do ABC (UFABC).