Expulsos, EUA deixam problema com Brasil e UE

 

O governo dos EUA sempre foi o principal parceiro da Bolívia no combate ao narcotráfico. Mas as más relações entre os dois países e o fato de que só uma pequena parte da cocaína boliviana chega aos EUA exigem um maior protagonismo do Brasil, dizem analistas e fontes do governo brasileiro.

Em maio deste ano, os EUA anunciaram o fechamento em La Paz da sede do NAS, seu escritório antidrogas, "em respeito à soberania da Bolívia e devido ao desejo do governo da Bolívia de nacionalizar os esforços antinarcóticos".

Quatro anos antes, Morales havia expulsado do país a DEA (agência antidrogas dos EUA) "por ingerência em assuntos internos". Os dois países retiraram seus embaixadores em 2008, e as representações são tocadas atualmente por encarregados de negócios.

"Há muito tempo, a mensagem do governo americano é clara: o problema da cocaína boliviana é de vocês [brasileiros] e dos europeus", diz uma fonte de Brasília.

Questionado pelo Valor, o Ministério das Relações Exteriores afirma que, com a saída das agências americanas, "não há dúvida de que o Brasil deverá encontrar os meios para incrementar e aperfeiçoar seus mecanismos de apoio ao Estado boliviano nessa área".

Em meio a problemas diplomáticos - o mais recente foi a fuga do senador boliviano Roger Pinto executada por diplomatas da Embaixada do Brasil em La Paz - fontes do governo brasileiro dizem que o combate ao narcotráfico é "o aspecto mais bem sucedido da cooperação entre os dois países".

Mas, apesar dos diversos convênios nesse tema, o Brasil ainda vê certa "ambiguidade" na política do governo Morales. Os brasileiros trabalham com "interlocutores confiáveis", como o vice-ministro de Defesa Social, Felipe Cáceres. Outros altos auxiliares de Morales, porém, são vistos com desconfiança, inclusive pela Polícia Federal, por supostos "nexos com o narcotráfico", apurou o Valor.

Oficialmente, o Itamarty também vê "com cautela e preocupação" um dado do estudo financiado pela UE: ele contabiliza 57,7 toneladas de folhas de coca que entram por ano em municípios brasileiros na fronteira com a Bolívia.

"É preciso reafirmar, primeiramente, o direito da Bolívia de cultivar coca para fins de uso tradicional interno", disse o ministério, em nota. "Mas também cabe recordar que a Convenção de Viena sobre Entorpecentes, de 1961, é inequívoca quanto à proibição de exportar a folha de coca." (FM)

 

Publicado em novembro de 2013, por Valor Econômico.