Brasil precisa estudar mudanças na China e preparar nova estratégia

 

Londres - A China que o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, visitará a partir de 28 de novembro, com uma comitiva de empresários, políticos e acadêmicos, não só tem o maior nível de reservas em dólares do mundo e um dos maiores fundos soberanos do plano, como também é uma economia em transformação que busca girar de um modelo exportador com baixos salários para um baseado mais no consumo doméstico e na produção de bens sofisticados.

A China é o destino hoje de 17% das exportações totais do estado do Rio Grande do Sul, uma clara indicação de sua importância para a economia da região. O problema é que quase 100% dessa exportação para o gigante asiático é de soja. Esse tipo de intercâmbio pode parecer a primeira vista a velha armadilha colonial de fornecer matérias primas em troca de produtos manufaturados, mas realmente é assim?

A Carta Maior conversou com o economista Wu Guoping, professor do Instituto Latino-americano da prestigiosa Academia de Ciências Sociais de Beijing para analisar as perspectivas dessa visita do governador do Rio Grande do Sul.

Qual a sua avaliação sobre o estado atual da relação entre China e Brasil?

Estou escrevendo um artigo sobre o desenvolvimento econômico do Brasil e sua inserção no comércio internacional. O que vi é que, por um lado, o Brasil está muito interessado em participar do mercado chinês, da Índia, da Rússia, por isso também tem o interesse de participar do grupo BRICS. Por outro lado, tem uma política protecionista para suas empresas. Há uma contradição. Com a China a relação diplomática é muito boa, mas em relação aos produtos chineses é protecionista e aplica muitas políticas antidumping.

Mas a China também impõe travas ao ingresso ou investimento de empresas de outros países na China.

É certo. As empresas brasileiras vão encontrar também dificuldades e diferentes normas. Por isso, ultimamente, a China quer mudar. Em Shangai temos uma zona franca de comércio que oferece mais liberdades para as empresas estrangeiras.
Esta zona franca, que abriu em setembro, oferece muitas facilidades. Uma empresa estrangeira pode operar livremente nessa zona desde que não atue em uma lista de serviços básicos que estão reservados ao Estado chinês. Esta é uma clara tendência para o futuro da economia chinesa. O plenário do congresso do Partido Comunista acaba de aprovar novas medidas que vão na mesma direção, ou seja, na direção de uma maior abertura.

No Brasil e em países da América Latina existe a impressão de que está se reproduzindo o velho esquema colonial no qual a América latina exporta matéria prima e a China produtos manufaturados. O Rio Grande do Sul, por exemplo, vende muito a China, mas vende praticamente só soja.

Este não é um problema da China, mas sim do Brasil. Na pesquisa que estou fazendo sobre o Brasil, vi que nos últimos dez anos, antes da China, já havia essa tendência de se apoiar mais em produtos primários. É claro que, com a China, isso se acentuou. Isso implica um problema no setor de manufatura porque seu peso no PIB brasileiro está diminuindo. Por outro lado, é bom para o Brasil exportar esses produtos primários porque favorece seu superávit comercial, ainda que, agora, esse superávit esteja baixando. Tanto é assim que a China está buscando agora um novo modelo porque está subindo o custo da mão de obra e vai aumentar ainda mais uma vez que o porcentual de jovens está diminuindo em relação ao número total de habitantes.

Além disso, mais da metade das exportações chinesas são feitas por empresas estrangeiras que tem se aproveitado do baixo custo da mão de obra na China. Mas agora, com essa mudança desse custo, algumas empresas estrangeiras estão transferindo suas empresas para países mais baratos como Tailândia ou Malásia.

Você acredita que o Brasil e os demais países da América Latina estão preparados para esta mudança de modelo da China?

Estive em março na CEPAL e sei que há preocupação na América Latina sobre a possibilidade de redução das importações da China na região. Como eu disse, a China está mudando o seu modelo. Creio que a América Latina tem que levar isso em conta porque a China vai buscar outro tipo de produtos para este novo modelo baseado no crescimento do consumo interno. O Brasil sempre pensa na soja e nos produtos primários, mas creio que teria que perguntar o que mais poderia exportar para a China em meio a esta mudança radical da estrutura econômica chinesa.

O que o Brasil teria que fazer? Em que setores poderia ter uma vantagem comparativa? O que a China vai necessitar com este novo modelo?

É preciso estudar esta mudança e preparar uma estratégia. Vou citar um exemplo muito simples. Neste momento, a China importa leite em pó da Austrália, mas há algum tempo se deu conta de que há problemas de qualidade com esse produto.
Na China temos uma crescente classe média que só pode ter um filho e que, portanto, busca o melhor para seu filho, os produtos de máxima qualidade, Este é um setor de consumo interno que oferece muitas oportunidades. A China já importa alimentos, bebidas como vinho e outras coisas. Recentemente, no supermercado, pude comprar camarões importados da Argentina. Isso não se via antes nos supermercados.

Neste sentido, pode-se dizer que hoje a vida cotidiana de um chinês tem a ver com a América Latina. Pela manhã toma um suco de soja ou de frutas importadas do Brasil, Chile e Argentina. Ao meio-dia, consome carne e vinho também importados desses países. E à noite a festa é regada com tequila mexicana. Todos esses produtos agroindustriais de consumo doméstico terão cada vez mais importância.

Esta é a mensagem que deixa para a missão liderada pelo governador do Rio Grande do Sul?

Sim. Essa missão chega em um bom momento porque acaba de terminar o plenário do Partido Comunista e está se trabalhando na segunda geração de reformas. É uma oportunidade única para examinar o que está ocorrendo na China depois dessa reunião e para ver que oportunidades oferece o mercado chinês. Será importante também para trazer informações para as empresas chinesas. As pequenas e médias empresas chinesas ainda não conhecem bem a América Latina. Elas precisam ter maiores informações sobre que vantagens podem ter na região. Quanto ao que pode se exportar para a China, além dos exemplos que dei da vida cotidiana, há produtos como o cobre que se exporta como produto primário, mas que agora começa a ser exportado também como artesanato, que é outra coisa. Esta é outra mudança que o Brasil e o resto da América Latina devem fazer no perfil de suas exportações a China. Produtos com maior valor agregado.

Como é o protocolo que cerca uma visita como esta do governador do Rio Grande do Sul?

Tudo depende dos objetivos da missão. Se não há objetivos específicos, há muito protocolo, banquetes, recepções. Mas se há objetivos específicos sobre investimentos é possível ter encontros concretos com empresas.

 

Por Marcelo Justo

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Publicado em novembro de 2013, por Carta Maior.