Por que internacionalizar uma cidade? As esferas locais, as Relações Internacionais e a disputa de hegemonia.

por Sérgio Godoy

 

O que veio a ser chamado de paradiplomacia municipal, ou a inserção internacional de governos municipais, inicialmente tem uma relação intrínseca com a necessidade de muitos governos locais de criar políticas de desenvolvimento para sua cidade ou região.

Ocorreu que nos anos 80, a crise da dívida pública, a inflação e o desemprego provocaram uma crise de legitimidade sobre o até então majoritário modelo de desenvolvimento, o nacional-desenvolvimentismo. De forma oportunista, os gastos públicos e a forte presença do Estado no planejamento econômico nacional foram tidos como os grandes vilões e o modelo que tinha bases em Raul Prebisch, Celso Furtado e na CEPAL, foi criticado na sua totalidade. Erroneamente, pois a versão desenvolvimentista da ditadura militar brasileira era apenas uma das possíveis, e talvez a mais questionável.


Neste mesmo período, o Brasil, como parte significativa dos países do conesul, também enfrentou processos de redemocratização política. A constituinte de 88 e as eleições presidenciais de 89 tinham entre as pautas principais, além da própria redemocratização, debates sobre como superar a crise econômica e retomar o crescimento do país.

Como têm acontecido durante os 500 anos de Brasil, a elite do país modernizou seu discurso e se unificou frente ao risco de perder o controle sobre o Estado e elegeu Fernando Collor à presidência. Entre os conteúdos modernizadores, com grande peso, estava presente o liberalismo. Collor significava modernidade, e modernidade significava abertura das fronteiras e redução do Estado. Estava claro, neste discurso, que a economia internacional poderia modernizar e fazer voltar a cresce a nossa economia nacional.

 

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“A criação do Foro Consultivo da Unasul, nos moldes do Foro do Mercosul, deve ser a iniciativa mais importante desta cúpula”

 

O Blog Brasil No Mundo, na série de entrevistas exclusivas, conversou com a professora Maria Regina Soares de Lima – IESP/UERJ – a propósito da realização da próxima Cúpula de Presidentes da UNASUL em Lima, Peru, nos dias 29 e 30 de novembro. A professora antecipa que, na ocasião, serão tratados temas como democracia, integração e inclusão social. Para ela,  ”a multiplicação de áreas de cooperação desde a criação da UNASUL sugere que há uma demanda reprimida que vem sendo suprida pela instituição”. Ainda, defende que “a construção de uma narrativa regional alternativa passa necessariamente pela ampliação do componente societal incorporando, juntamente com os empresários e as diversas burocracias domésticas que já lá estão, os movimentos sociais, os sindicatos e os setores organizados da sociedade civil” e que “só desta forma uma liderança cooperativa brasileira terá credibilidade e legitimidade junto aos nossos vizinhos”.

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Os BRICS – Ainda uma grande incógnita

Por Nathalie Beghin*

A ideia dos BRICS nasceu no começo da década de 2000, mas foi materializada somente em 2009 com a primeira cúpula de chefes de Estado, realizada em Ecaterimburgo, na Rússia. Há poucos dias atrás, em finais de março, ocorreu a V Cúpula, em Durban, na África do Sul.

O bloco, integrado por cinco países – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – representa potência econômica e política que não pode ser desprezada. Com quase metade da população mundial, 20% da superfície terrestre, recursos naturais abundantes e economias diversificas com elevado ritmo de crescimento, o clube já tem participação no PIB mundial equivalente à dos Estados Unidos ou da União Europeia. Segundo dados da revista The Economist, os BRICS foram responsáveis por 55% do crescimento global nos últimos três anos. Desde o final de 2009, quando a economia mundial cresceu pouco mais de 2%, até o último trimestre de 2012, os 23 países considerados desenvolvidos contribuíram com apenas 20% para o crescimento da economia global.

O desempenho recente destas economias e seus indicadores macroeconômicos auxiliaram na mudança de perspectiva em relação às suas potencialidades de crescimento. Sobretudo porque, em comum, estas economias apresentam grandes mercados internos e volumes de exportação que lhes conferem um espaço maior de participação nas relações internacionais. Alguns estudos chegam a apontar que os nos próximos 50 anos os BRICS poderão superar o G-6 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália) como principal força propulsora da economia global.

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Aliança do Factóide de Marcelo Zero

Os conservadores brasileiros têm um novo fetiche: a Aliança do Pacífico. Trata-se um novo bloco econômico comercial que pretende agregar, numa área de livre comércio, Chile, Peru, Colômbia, México e Costa Rica.

Conforme as notícias que lemos na grande imprensa, a Aliança do Pacífico foi criada para servir de contrapeso ao Mercosul, um bloco de economias “estatizadas” e “pouco dinâmicas”, que rejeitam as benesses do livre-comércio. Ainda de acordo com nossos determinados paleoliberais, que persistem em suas crenças panglossianas mesmo após a crise do capitalismo desregulado, o futuro pertence à Aliança, ao passo que ao Mercosul caberia o atraso, a estagnação e o isolamento.

Bom, em primeiro lugar, é preciso observar que qualquer bloco econômico da América do Sul ou da América Latina que não inclua o Brasil não terá maior relevância regional. O Brasil é a sexta economia mundial e o Mercosul, em seu conjunto, já representa a quarta economia mundial, à frente de gigantes como Alemanha e Japão. Em contrapartida, o México, a grande economia da Aliança do Pacífico, é a décima quarta economia do mundo (dados de 2011) e a Aliança como um todo representaria a novena economia do planeta. Ademais, nenhum país da Aliança chega perto do peso demográfico, geográfico e geopolítico que o Brasil tem hoje no mundo.